IA decifra papiro carbonizado de Herculano sem abrir o documento
Inteligência artificial conseguiu ler texto de papiro carbonizado há 2 mil anos pelo Vesúvio sem destruir o material. Entenda como a tecnologia está revelando bibliotecas antigas.
Sumário do artigo
- Tomografia e machine learning revelam texto invisível em papiros carbonizados
- Competição global acelerou desenvolvimento de modelos de leitura por IA
- Biblioteca de Herculano pode conter obras perdidas da literatura clássica
- Técnica pode ser aplicada a outros documentos históricos danificados
- Próximos passos incluem decifrar biblioteca completa e buscar novos rolos

Um papiro carbonizado pela erupção do Vesúvio há quase 2 mil anos acaba de ser decifrado por inteligência artificial, sem que ninguém precisasse abri-lo ou destruí-lo. O documento faz parte da biblioteca de Herculano, cidade romana soterrada junto com Pompeia em 79 d.C., e contém centenas de rolos que viraram blocos de carvão com o calor extremo da erupção.
A técnica usa tomografia computadorizada combinada com algoritmos de aprendizado de máquina para identificar padrões de tinta invisíveis a olho nu. O resultado é a leitura de textos filosóficos gregos que estavam inacessíveis há séculos, abrindo uma janela direta para o pensamento da antiguidade clássica.
O projeto ganhou força com o Vesuvius Challenge, competição que ofereceu prêmios para quem conseguisse decifrar os papiros usando IA. A iniciativa reuniu pesquisadores de diferentes países e acelerou o desenvolvimento de modelos capazes de "ler" o que está escondido dentro de materiais frágeis demais para serem manipulados.
Tomografia e machine learning revelam texto invisível em papiros carbonizados
Os papiros de Herculano foram descobertos no século XVIII, mas sempre representaram um dilema: abri-los significava destruí-los. Tentativas mecânicas ao longo dos anos danificaram diversos rolos, e a maior parte do acervo permaneceu intocada por falta de alternativas seguras.
A solução veio da combinação de duas tecnologias. Primeiro, tomógrafos de raios-X de alta resolução geraram imagens tridimensionais do interior dos rolos. Depois, algoritmos de visão computacional foram treinados para identificar padrões sutis que indicam a presença de tinta à base de carbono sobre o papiro também carbonizado.
Segundo a reportagem do Catraca Livre, a tinta usada na época não continha metais pesados, o que tornava impossível diferenciá-la do papiro queimado usando apenas tomografia convencional. Os modelos de IA aprenderam a detectar variações mínimas de textura e densidade que correspondem às letras escritas há milênios.
O primeiro texto completo decifrado revelou discussões filosóficas sobre prazer e música, provavelmente de autoria de Filodemo de Gadara, filósofo epicurista que viveu no século I a.C.
Competição global acelerou desenvolvimento de modelos de leitura por IA
O Vesuvius Challenge foi lançado em 2023 com prêmios que somam centenas de milhares de dólares para equipes que conseguissem ler trechos significativos dos papiros. A competição atraiu cientistas da computação, historiadores e especialistas em visão computacional do mundo todo.
Em 2024, uma equipe formada por estudantes conseguiu decifrar mais de 2 mil caracteres de um rolo, conquistando o prêmio principal. O método desenvolvido combina redes neurais convolucionais com técnicas de segmentação 3D, permitindo "desenrolar" virtualmente os papiros antes de aplicar os algoritmos de leitura.
A abordagem open source adotada pela competição significa que todos os modelos e dados estão disponíveis publicamente. Isso permite que outros pesquisadores aprimorem as técnicas e as apliquem a diferentes acervos de documentos históricos danificados.
O projeto também disponibilizou scans de alta resolução de dezenas de papiros ainda não decifrados, criando um banco de dados valioso para treinar novos modelos de IA.
Biblioteca de Herculano pode conter obras perdidas da literatura clássica
A biblioteca onde os papiros foram encontrados pertencia provavelmente a Lúcio Calpúrnio Pisão Cesonino, sogro de Júlio César. O acervo contém principalmente textos filosóficos gregos, mas pesquisadores acreditam que uma seção com obras latinas ainda não foi descoberta.
Se essa seção existir, ela pode conter cópias de obras perdidas de autores como Virgílio, Ovídio ou até mesmo tratados políticos de Cícero. A possibilidade de recuperar textos que se acreditavam perdidos para sempre motiva o desenvolvimento contínuo das técnicas de leitura por IA.
Atualmente, existem cerca de 1.800 papiros catalogados, mas apenas uma fração foi digitalizada em alta resolução. O processo de escaneamento é caro e demorado, mas os resultados já obtidos justificam o investimento.
Cada novo texto decifrado oferece informações sobre filosofia, literatura, ciência e vida cotidiana do mundo romano que não existem em nenhuma outra fonte.
Técnica pode ser aplicada a outros documentos históricos danificados
Os métodos desenvolvidos para Herculano já estão sendo adaptados para outros acervos. Manuscritos queimados em incêndios, documentos deteriorados pela umidade e até mesmo textos apagados em palimpsestos podem se beneficiar da mesma abordagem.
Museus e bibliotecas ao redor do mundo mantêm coleções de materiais frágeis demais para serem abertos ou manipulados. A leitura não invasiva por IA representa uma forma de preservar e acessar esse patrimônio simultaneamente.
O custo da tecnologia ainda é alto, mas tende a diminuir conforme os modelos se tornam mais eficientes e o acesso a tomógrafos de alta resolução se expande. Projetos de digitalização em larga escala já estão sendo planejados para diferentes acervos históricos.
A combinação de hardware de imageamento avançado com modelos de visão computacional está criando uma nova disciplina na interseção entre arqueologia, história e ciência de dados.
Próximos passos incluem decifrar biblioteca completa e buscar novos rolos
Os organizadores do Vesuvius Challenge já anunciaram novos desafios para 2025, com metas mais ambiciosas. O objetivo é decifrar rolos inteiros de forma automatizada, reduzindo o tempo necessário para processar cada documento de meses para dias.
Paralelamente, escavações arqueológicas em Herculano continuam buscando novos papiros. A villa onde a biblioteca foi encontrada está apenas parcialmente escavada, e evidências sugerem que outros cômodos com mais rolos podem estar preservados sob camadas de lava solidificada.
A tecnologia de IA também está sendo refinada para identificar diferentes mãos de escribas, datar documentos com mais precisão e até mesmo reconstruir partes danificadas do texto usando modelos de linguagem treinados em grego e latim antigos.
O projeto representa um exemplo concreto de como IA pode ser aplicada para resolver problemas que resistiram a séculos de tentativas usando métodos tradicionais. Segundo reportagem publicada por catracalivre.com.br.
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