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Tecnologia

Musk admite uso do GPT para treinar Grok em tribunal

Durante depoimento na Califórnia, Elon Musk admitiu que sua empresa xAI utilizou modelos do ChatGPT para aprimorar o Grok, revelando prática comum no setor de IA.

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Caio Braga
10 de maio de 2026 · 7 min de leitura
Sumário do artigo
Musk admite uso do GPT para treinar Grok em tribunal

Elon Musk confirmou sob juramento que sua empresa de inteligência artificial, a xAI, utilizou tecnologia do ChatGPT para aprimorar o próprio assistente de IA, o Grok. A revelação aconteceu durante seu depoimento na quinta-feira (30) em um tribunal federal na Califórnia, onde o bilionário enfrenta a OpenAI em uma disputa judicial que já dura meses.

A admissão aconteceu quando William Savitt, advogado da OpenAI, questionou Musk sobre destilação de modelos — uma técnica que utiliza um sistema de IA maior e mais robusto para treinar outro modelo menor. Após demonstrar conhecimento sobre o método, Musk foi pressionado a responder se a xAI havia aplicado essa técnica usando tecnologia da OpenAI. Inicialmente evasivo, o empresário acabou confirmando: "Em parte, [usou modelos de IA da OpenAI]".

Esse momento no tribunal expõe uma ironia considerável. Musk processa a OpenAI alegando desvio de missão e busca US$ 150 bilhões em indenização, ao mesmo tempo em que sua própria empresa se beneficiou da tecnologia desenvolvida pela organização que ele cofundou. A declaração também levanta questões sobre práticas de treinamento de IA e até que ponto a competição no setor permite o uso de modelos concorrentes.

A técnica de destilação que Musk confirmou usar

Destilação de modelos representa uma abordagem estratégica no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. O processo funciona transferindo conhecimento de um modelo grande e complexo (chamado de "professor") para um modelo menor e mais eficiente (o "aluno"). Você obtém um sistema que mantém boa parte da capacidade do modelo original, mas com custo computacional reduzido.

Quando questionado sobre a prática, Musk tentou normalizar a situação afirmando que "geralmente todas as empresas de IA fazem isso". Ele complementou dizendo que "é prática comum usar outras IAs para validar sua IA". A declaração sugere que o uso de modelos concorrentes para benchmarking e treinamento seria amplamente aceito no setor.

Contudo, a afirmação levanta questões éticas e legais significativas. Se Musk processa a OpenAI por supostamente trair princípios fundadores enquanto sua própria empresa utiliza a tecnologia da OpenAI para competir diretamente, a coerência de seus argumentos pode ser questionada. A revelação fortalece a narrativa da defesa de que o bilionário age motivado por interesses comerciais da xAI, não por princípios.

A técnica de destilação não é ilegal por si só, mas seu uso neste contexto específico adiciona complexidade ao caso. A OpenAI disponibiliza suas APIs publicamente, mas os termos de uso podem incluir restrições sobre como os resultados podem ser empregados, especialmente para treinar modelos concorrentes.

O processo bilionário que coloca antigos aliados em lados opostos

Musk, um dos cofundadores originais da OpenAI, alega que a empresa abandonou sua missão inicial de desenvolver inteligência artificial para o benefício da humanidade. Segundo o empresário, a organização liderada por Sam Altman e Greg Brockman se transformou em uma "máquina de riqueza", priorizando lucros sobre o bem comum.

O bilionário busca US$ 150 bilhões em danos da OpenAI e da Microsoft. Segundo fontes ligadas ao processo, esse valor seria destinado ao braço filantrópico da OpenAI. Além da compensação financeira, Musk exige que a OpenAI retorne ao modelo estritamente sem fins lucrativos e que Altman e Brockman sejam removidos de suas posições executivas.

O argumento central de Musk sustenta que ele foi mantido no escuro sobre a criação de uma estrutura comercial em 2019. O empresário afirma que seu nome e apoio financeiro foram usados indevidamente para atrair investidores e cientistas de elite. Entre 2016 e 2020, Musk investiu aproximadamente US$ 38 milhões na OpenAI, valor que ele considera ter sido explorado de má-fé.

A Microsoft, também ré no processo, nega qualquer conspiração. A gigante de tecnologia afirma que sua parceria com a OpenAI só foi estabelecida após a saída de Musk do conselho da empresa, e que todos os acordos foram transparentes e legítimos.

Como a OpenAI rebate as acusações de Musk

Os advogados da OpenAI apresentam uma narrativa completamente diferente. Eles argumentam que Musk é movido por desejo de controle e pelo interesse em impulsionar a xAI, sua própria empresa de inteligência artificial fundada em 2023. A defesa afirma que o bilionário participou ativamente das discussões sobre a mudança de estrutura da organização.

Documentos apresentados no tribunal revelam que Musk não apenas sabia da transição para um modelo híbrido, mas também exigiu ser nomeado CEO na época. Quando não conseguiu assumir o controle total da OpenAI, o empresário teria deixado o conselho em 2018, prevendo que a empresa fracassaria diante da concorrência do Google.

Em comunicado divulgado na segunda-feira (27), intitulado "A verdade sobre Elon Musk e a OpenAI", a empresa contra-atacou publicamente. O texto afirma que as ações do bilionário são motivadas por "ciúmes, arrependimento por ter abandonado a OpenAI e desejo de descarrilar uma concorrente".

"Elon passou anos assediando a OpenAI por meio de processos infundados e ataques públicos. Ele está usando seu processo para atacar a fundação sem fins lucrativos OpenAI, que é focada em trabalhos em áreas como ciências da vida e na cura de doenças para o benefício de todos", afirma o comunicado.

A estratégia da defesa busca retratar Musk como um empresário frustrado que não conseguiu controlar a OpenAI e agora tenta prejudicar a organização através de litígio. A admissão sobre o uso de tecnologia GPT no treinamento do Grok fortalece essa narrativa.

Documentos revelam tensões desde os primeiros dias da OpenAI

Documentos internos apresentados durante o processo oferecem uma visão detalhada sobre a evolução da OpenAI, desde um laboratório de pesquisa no apartamento de Greg Brockman até uma empresa avaliada em mais de US$ 850 bilhões. Os registros expõem tensões que existiam desde os primeiros anos.

Sam Altman apresentou a ideia a Musk em 2015, descrevendo o projeto como o "Projeto Manhattan da IA" — uma referência ao programa secreto que desenvolveu a bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial. O apoio de Musk foi fundamental para atrair cientistas de elite e estabelecer credibilidade no competitivo mercado de inteligência artificial.

Em 2017, as primeiras tensões significativas surgiram quando Musk questionou a viabilidade do projeto e tentou assumir o controle como CEO. Anotações do diário pessoal de Brockman reveladas no processo mostram que, na mesma época, ele expressava o desejo de "se livrar" de Musk, referindo-se ao bilionário ironicamente como "líder glorioso".

Musk deixou o conselho em 2018, prevendo publicamente que a OpenAI fracassaria diante do Google. A previsão se mostrou completamente equivocada. Em 2019, a empresa se reestruturou para aceitar investimentos externos, e o lançamento do ChatGPT no final de 2022 consolidou seu sucesso global, transformando a OpenAI na empresa de IA mais valiosa do mundo.

O que está em jogo além do tribunal

O desfecho deste caso acontece em um momento crítico para ambas as partes. A OpenAI prepara uma possível abertura de capital que pode elevar seu valor de mercado para US$ 1 trilhão, consolidando sua posição como líder absoluta em inteligência artificial generativa.

Do outro lado, a xAI de Musk trabalha intensamente para diminuir a distância tecnológica que a separa do ChatGPT. O Grok, integrado à plataforma X (antigo Twitter), ainda não alcançou a mesma penetração de mercado ou capacidade técnica dos concorrentes estabelecidos. A admissão de que a empresa usou tecnologia GPT para treinar seu próprio modelo sugere que essa distância pode ser maior do que Musk gostaria de admitir publicamente.

A SpaceX, outra empresa de Musk, também planeja sua oferta pública de ações, e o empresário precisa manter sua reputação como visionário tecnológico. Uma derrota acachapante no tribunal contra a OpenAI, especialmente após admitir o uso de tecnologia da empresa que ele processa, pode afetar a percepção do mercado sobre suas capacidades de liderança.

Para a OpenAI, vencer o processo não apenas eliminaria uma ameaça legal significativa, mas também validaria suas decisões estratégicas de transição para um modelo híbrido. A empresa argumenta que essa mudança foi necessária para competir com gigantes como Google e Microsoft, e que continua comprometida com o desenvolvimento seguro de IA.

A reportagem completa foi publicada originalmente no G1.

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